Levantamento da Ford em parceria com o Datafolha mostra que 98% das empresas brasileiras têm dificuldade para contratar profissionais de tecnologia e reforça que inglês, soft skills e formação técnica ampla já são decisivos para entrar no mercado.
Anunciada na manhã desta quinta-feira, uma pesquisa inédita da Ford em parceria com o Datafolha escancarou um dos principais gargalos do mercado de trabalho brasileiro: a dificuldade crescente das empresas para contratar talentos em tecnologia. O estudo, intitulado Mercado de Trabalho Tech: Raio-X e Tendências, revela que 98% das empresas ouvidas enfrentam obstáculos para encontrar profissionais qualificados, em um cenário que já afeta ritmo de crescimento, inovação e competitividade.
O levantamento ouviu 250 líderes de Recursos Humanos e Tecnologia da Informação de médias e grandes empresas, responsáveis por contratações em todas as regiões do país. A amostra reúne organizações de segmentos como tecnologia, varejo, serviços, educação, finanças e saúde, o que amplia o peso do diagnóstico: o déficit de talentos tech já não é uma dor isolada do setor de tecnologia, mas um problema transversal ao mercado.
Na prática, os dados mostram que o Brasil ainda convive com uma lacuna importante entre a velocidade da transformação digital e a capacidade de formar profissionais preparados para acompanhar essa demanda. Para Pamela Paiffer, diretora de Comunicação e Responsabilidade Social da Ford América do Sul, o estudo reforça justamente esse descompasso entre inovação e disponibilidade de mão de obra qualificada. Segundo ela, enfrentar esse cenário exige ampliar o acesso ao conhecimento tecnológico conectado às demandas reais do mercado.
A dificuldade de contratação tem causas bastante objetivas. Para 72% das empresas, a falta de conhecimento técnico é um dos principais entraves no recrutamento. Já 54% apontam a ausência de experiência como obstáculo relevante no preenchimento das vagas. O resultado é um processo seletivo mais longo e mais oneroso: apenas 14% das empresas conseguem contratar em menos de um mês, enquanto metade leva entre um e dois meses, 25% demoram de dois a três meses e 11% ultrapassam quatro meses de busca.
Essa demora ajuda a revelar um ponto sensível para o RH e para a agenda de desenvolvimento de carreiras: formar profissionais para o mercado de tecnologia já não significa apenas garantir domínio técnico. Significa preparar pessoas para atender a uma régua mais ampla de exigência, que passa por competências técnicas, maturidade comportamental e capacidade de se adaptar a um ambiente de transformação contínua.
Entre as posições mais difíceis de preencher, a pesquisa destaca especialistas em inteligência artificial, citados por 35% das empresas, e engenheiros de software, mencionados por 31%. Também aparecem entre as lacunas mais críticas os conhecimentos em Segurança da Informação, apontados por 30%, e em Inteligência Artificial e Machine Learning, lembrados por 29%. Os dados mostram que as áreas mais estratégicas da nova economia digital são justamente aquelas em que o recrutamento encontra mais resistência.
Mas o estudo também desmonta uma visão antiga, ainda muito presente no imaginário corporativo: a de que basta dominar ferramentas e linguagens técnicas para conquistar espaço no setor. Segundo a pesquisa, 37% das empresas frequentemente ou sempre rejeitam candidatos tecnicamente aptos por falta de soft skills. Entre as competências comportamentais mais difíceis de encontrar estão inteligência emocional, citada por 36% das empresas, e pensamento crítico com capacidade de resolver problemas, apontado por 33%.
Esse recorte ajuda a explicar por que a discussão sobre empregabilidade em tecnologia precisa ser mais ampla. O profissional que deseja entrar ou crescer nesse mercado precisa dominar conteúdos técnicos, mas também demonstrar repertório humano para lidar com pressão, colaboração, análise e tomada de decisão. Em outras palavras, o mercado de trabalho tech está cada vez menos disposto a contratar apenas “bons executores” e cada vez mais interessado em profissionais capazes de pensar, se comunicar e reagir com maturidade diante de cenários complexos.
Outro dado chama atenção de forma especial e merece destaque na discussão sobre acesso ao emprego: 78% das empresas desclassificam candidatos que não possuem domínio do inglês. O número mostra que o idioma deixou de ser um diferencial desejável para se consolidar, em muitos casos, como filtro real de entrada no mercado de trabalho em tecnologia.
A importância do inglês se explica por fatores estruturais do próprio setor. Grande parte da documentação técnica, das atualizações de plataformas, dos cursos de ponta, das comunidades de desenvolvimento e das referências globais de inovação circula primeiro nesse idioma. Em um mercado em que velocidade de aprendizagem e atualização constante pesam tanto quanto experiência anterior, não dominar inglês significa, para muitos candidatos, ficar limitado no acesso ao conhecimento, às oportunidades e à própria linguagem do setor. O recado para profissionais, instituições de ensino e áreas de RH é direto: investir em inglês não é mais complemento. É estratégia de empregabilidade.
Fernanda Ramos, diretora de Recursos Humanos da Ford América do Sul, reforça essa visão ao afirmar que a formação precisa ir além da qualificação técnica. Segundo ela, a demanda por inteligência emocional e pensamento crítico é grande e tende a crescer, o que exige preparação mais abrangente para um mercado em constante transformação.
O estudo também lança luz sobre o que atrai a Geração Z para o setor. Entre os jovens talentos, salário aparece como principal fator de decisão sobre onde trabalhar, citado por 53% dos entrevistados. Na sequência vêm flexibilidade na jornada, com 49%, e equilíbrio entre vida pessoal e profissional, com 39%. O dado mostra que remuneração continua central, mas já convive com expectativas mais claras sobre qualidade de vida e modelo de trabalho.
Ao mesmo tempo, a pesquisa evidencia um desafio persistente de diversidade e inclusão. Nada menos que 93% das empresas afirmam ter dificuldades para encontrar candidatos de grupos sub-representados. Esse recorte reforça a necessidade de políticas mais consistentes de formação, inclusão produtiva e ampliação de acesso para públicos historicamente afastados das oportunidades na área de tecnologia.
É nesse contexto que a Ford busca posicionar o programa Ford <Enter> como resposta prática ao problema. Criado em 2022, o projeto social oferece cursos gratuitos de programação em áreas como Front-End, Back-End, Power BI e Python para pessoas em situação de vulnerabilidade. Além da formação, o programa inclui ajuda de custo para transporte e alimentação, assistência social e encaminhamento ativo ao mercado de trabalho. Desde seu lançamento, já registrou mais de 15 mil inscritos e formou mil alunos no Brasil, muitos deles empregados antes mesmo da conclusão do curso.
Atualmente, o programa está com inscrições abertas para novas turmas em São Paulo, com 40 vagas disponíveis. A iniciativa também já foi expandida para outros países da América Latina, como Argentina, Chile, Peru e Colômbia, o que revela a tentativa de transformar a formação em tecnologia em uma ponte concreta entre vulnerabilidade social e inserção profissional.
Ao olhar para o futuro, a pesquisa mostra que a inteligência artificial será o principal motor de mudança no mercado de tecnologia nos próximos dois anos, segundo 46% das empresas. A necessidade de qualificação profissional aparece em segundo lugar, com 29%, seguida por inovações tecnológicas, com 17%. O levantamento também prevê que as soft skills serão, no futuro próximo, ainda mais difíceis de encontrar que as hard skills: 50% das empresas apontam as competências comportamentais como maior lacuna, contra 44% que mencionam as técnicas.
Para Djalma Brighenti, diretor de TI da Ford América do Sul, a inteligência artificial já está mudando o mercado, mas ainda depende de uma base sólida para gerar valor real. Isso inclui dados organizados, contexto claro e profissionais preparados para transformar informação em decisão. Na leitura dele, o desafio das empresas é duplo: investir em tecnologia e, ao mesmo tempo, desenvolver talentos capazes de sustentar essa transformação.
No fundo, a pesquisa anunciada nesta quinta-feira aponta para uma mensagem que o mercado de trabalho já começa a absorver com mais clareza: tecnologia, sozinha, não resolve a escassez de talentos. O que faz diferença é a combinação entre formação técnica de qualidade, desenvolvimento comportamental, domínio do inglês e acesso mais democrático às oportunidades de qualificação. Para quem quer entrar no setor, o caminho está cada vez mais claro — e também mais exigente. Para as empresas, o alerta é inequívoco: sem investimento em formação e inclusão, o apagão de talentos em tecnologia tende a continuar travando contratações, inovação e crescimento.
