Empresa lança ferramenta para digitalizar atestados e transformar ausências médicas em indicadores; proteção de dados e prevenção permanecem como desafios.
A Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais em 2025. O número representa crescimento de 15,66% em comparação com as 472.328 concessões registradas no ano anterior.
O dado não corresponde a todos os atestados ou afastamentos ocorridos nas empresas. Ele contabiliza os benefícios previdenciários concedidos especificamente por diagnósticos inseridos no capítulo de transtornos mentais e comportamentais da Classificação Internacional de Doenças.
Transtornos ansiosos e episódios depressivos lideraram as concessões. As mulheres representaram 63,46% do total, com 346.613 benefícios, diante de 199.641 destinados aos homens, segundo o Ministério da Previdência Social.
A alta pressiona empresas a aperfeiçoarem não apenas suas políticas de saúde, mas também a forma como registram, acompanham e analisam as ausências dos profissionais.
Indexmed digitaliza fluxo de atestados
Diante desse cenário, a healthtech Indexmed anunciou o lançamento de um módulo de Gestão de Afastamentos. A solução foi desenvolvida para centralizar o recebimento, a validação e o acompanhamento de atestados médicos.
Pela plataforma, o trabalhador pode encaminhar o documento digitalmente. Departamentos Pessoais, áreas de Recursos Humanos e equipes dos Serviços Especializados em Segurança e Medicina do Trabalho, os SESMTs, recebem as informações em um painel centralizado.
Os profissionais responsáveis podem verificar o documento, registrar justificativas e atualizar a situação do afastamento. A proposta é substituir controles paralelos, trocas de mensagens e planilhas que dificultam a consolidação das informações.
Segundo a empresa, quando um atestado é validado, o sistema cria o registro correspondente, atualiza o status do profissional e acompanha o período de ausência até o retorno.
“O novo módulo organiza esse fluxo de ponta a ponta. Conseguimos transformar o recebimento de um simples atestado em um dado analítico valioso, que ajuda os gestores a entenderem os custos operacionais envolvidos e a situação do quadro de funcionários”, afirma Leandro Santos, CSO da Indexmed.
Dados para calcular o impacto das ausências
Além do tratamento dos documentos, a plataforma reúne indicadores sobre a evolução do absenteísmo, número de profissionais afastados, duração das ausências e possível impacto financeiro.
A Indexmed afirma que os painéis podem ajudar as empresas a identificar concentrações de afastamentos por período, unidade, função ou área. A análise histórica também pode revelar reincidências e mudanças no perfil das ausências.
A estimativa do custo, entretanto, depende dos critérios adotados por cada organização. Remuneração, substituições, horas extras, queda de produção e prazo de afastamento são algumas das variáveis que podem compor o cálculo. Por isso, os indicadores não devem ser interpretados automaticamente como uma mensuração exata de todo o prejuízo.
Os dados podem apoiar decisões sobre dimensionamento de equipes, programas de saúde, retorno ao trabalho e ações preventivas. Também ajudam a reduzir o tempo gasto pelas áreas administrativas na procura e conferência de documentos.
Integração com o eSocial
A healthtech informa que o módulo foi projetado para integrar os registros ao eSocial. Nos afastamentos enquadrados nas regras oficiais, o empregador precisa transmitir o evento S-2230, que informa início, término, alteração ou prorrogação do afastamento temporário.
Desde outubro de 2024, o INSS consulta automaticamente as informações enviadas ao eSocial para calcular o último dia trabalhado durante a análise do benefício por incapacidade temporária. O governo considera que o envio correto pode reduzir pendências e tornar o processamento mais rápido. Portal do eSocial
A utilização de um software pode automatizar parte desse processo, mas não transfere a responsabilidade da empresa. Prazos, motivos, alterações e retornos precisam ser revisados antes da transmissão. A adoção de uma plataforma também não garante, isoladamente, conformidade trabalhista ou previdenciária.
Informações de saúde exigem proteção reforçada
O tratamento digital de atestados acrescenta um ponto crítico: a proteção das informações dos trabalhadores. Dados referentes à saúde são classificados pela Lei Geral de Proteção de Dados como dados pessoais sensíveis e estão sujeitos a regras mais rigorosas.
As organizações precisam definir quem pode acessar os documentos, por quanto tempo eles serão armazenados e quais informações são realmente necessárias para cumprir obrigações trabalhistas e previdenciárias.
Medidas como controle de acesso, criptografia, rastreamento de consultas, autenticação e políticas de descarte devem fazer parte da análise antes da contratação da tecnologia. A empresa também precisa esclarecer os papéis e as responsabilidades do empregador e do fornecedor no tratamento das informações. ANPD
O uso de painéis gerenciais exige cuidado adicional. Sempre que possível, informações destinadas à análise de tendências devem ser agregadas ou anonimizadas, evitando exposição de diagnósticos individuais a gestores que não precisam conhecer os detalhes médicos.
Tecnologia organiza, mas não previne sozinha
A digitalização pode reduzir falhas administrativas e oferecer uma visão mais organizada do absenteísmo. No entanto, a ferramenta atua sobre o processo de gestão dos afastamentos, não necessariamente sobre suas causas.
O aumento dos benefícios relacionados à saúde mental demanda medidas que vão além do recebimento de atestados. Avaliação das condições de trabalho, preparação das lideranças, suporte psicológico, prevenção do assédio e planejamento adequado das jornadas continuam indispensáveis.
Os indicadores gerados pela tecnologia podem ajudar a localizar sinais de alerta. O risco surge quando os dados são utilizados para vigiar, constranger ou discriminar trabalhadores adoecidos.
O desafio das empresas será combinar eficiência administrativa, proteção da privacidade e ações efetivas de cuidado. Nesse equilíbrio, a tecnologia pode transformar documentos dispersos em informações úteis — mas a redução dos afastamentos dependerá da capacidade de agir sobre os problemas revelados pelos dados.





