O avanço das plataformas digitais de apostas trouxe para o ambiente corporativo uma discussão que vai além do dinheiro perdido pelos apostadores. Interrupções durante o expediente, problemas financeiros, ansiedade e tentativas de recuperar prejuízos podem repercutir sobre concentração, produtividade e qualidade das decisões profissionais.
Ainda não existe uma estimativa consolidada de quanto esses comportamentos custam às empresas brasileiras. O alcance das apostas, porém, ajuda a dimensionar a necessidade de acompanhar o fenômeno. Estudo preliminar do Banco Central estimou que aproximadamente 24 milhões de pessoas fizeram ao menos uma transferência via Pix para empresas de jogos e apostas entre janeiro e agosto de 2024.
No período analisado, as transferências mensais ficaram entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões. O próprio Banco Central ressalva que os dados são estimativas e representam valores brutos, sem descontar os prêmios devolvidos aos apostadores. Banco Central do Brasil
Para Anderson Ozawa, CEO da AOzawa Consultoria e especialista em prevenção de perdas, o debate precisa incorporar uma questão ainda pouco observada: o efeito econômico que determinados comportamentos podem provocar dentro das organizações.
Um custo que não aparece no balanço
Ozawa propõe o conceito de “perdas comportamentais” para identificar prejuízos provocados por condutas individuais que, quando repetidas e observadas coletivamente, podem afetar os resultados da empresa.
Uma organização não perde dinheiro simplesmente porque um funcionário realiza uma aposta. O risco surge quando o comportamento interfere na jornada de trabalho ou na capacidade de tomar decisões.
Consultar resultados, acompanhar partidas, verificar cotações e fazer novas apostas durante o expediente pode criar sucessivas interrupções. Em uma empresa com centenas ou milhares de profissionais, pequenos períodos de desatenção podem se transformar em horas de baixa produtividade, erros e retrabalho.
Essas perdas dificilmente aparecem de forma isolada na demonstração financeira. Elas podem estar distribuídas entre atrasos, falhas operacionais, queda de qualidade, aumento do absenteísmo, atendimento inadequado e decisões tomadas sob pressão emocional.
“A empresa deixa de enxergar parte do problema quando observa somente o dinheiro perdido pelo colaborador e não o impacto sobre sua capacidade de gerar valor”, argumenta Ozawa.
O especialista considera que a mesma lógica pode ser aplicada ao uso compulsivo de redes sociais, à dependência tecnológica, aos golpes eletrônicos e a outros comportamentos estimulados pela economia digital.
Impactos não atingem todos da mesma maneira
Tratar o tema exige cuidado para não transformar todos os apostadores em pessoas com dependência ou baixo desempenho. A prática ocasional não significa necessariamente a existência de um transtorno.
Guia publicado pelo Ministério da Saúde em 2026 cita levantamento segundo o qual 61,4% dos jogadores avaliados não apresentavam comportamento de risco. Outros 19,4% estavam classificados como baixo risco, 14,8% como risco moderado e 4,4% como alto risco.
Ao mesmo tempo, o documento registra que os atendimentos relacionados a jogo patológico e mania de jogo e aposta no SUS aumentaram 104% entre janeiro de 2018 e maio de 2025, totalizando 10.553 registros. A faixa etária de 20 a 49 anos concentrou a maior prevalência — justamente o grupo com presença mais expressiva no mercado de trabalho. Ministério da Saúde
O transtorno do jogo é caracterizado pela dificuldade de controlar o impulso de apostar mesmo diante de prejuízos financeiros, familiares, profissionais e emocionais. Entre os sinais de alerta estão mudanças de humor, ansiedade, irritabilidade, comprometimento do orçamento e dificuldade de reduzir ou interromper as apostas. Ministério da Saúde
Proibição isolada tende a ser insuficiente
Diante dos possíveis impactos, algumas empresas podem ser levadas a responder com bloqueios tecnológicos ou proibições. Para Ozawa, medidas desse tipo têm alcance limitado quando não fazem parte de uma política mais ampla.
“Empresas maduras não governam pessoas, mas riscos”, afirma o consultor.
Bloquear sites de apostas na rede corporativa pode reduzir o acesso pelos equipamentos da empresa, mas não impede o uso de smartphones e conexões particulares. Uma atuação exclusivamente punitiva também pode levar o profissional a esconder o problema e retardar a procura por ajuda.
A resposta pode combinar regras objetivas para o uso de dispositivos durante a jornada, programas de educação financeira, apoio psicológico e canais confidenciais de acolhimento. Líderes também precisam ser preparados para reconhecer alterações relevantes de comportamento sem tentar diagnosticar ou constranger o funcionário.
Nos casos em que houver sinais de sofrimento ou perda de controle, a recomendação é orientar a busca por atendimento especializado. O SUS oferece acolhimento em unidades básicas de saúde e nos Centros de Atenção Psicossocial.
Como medir sem invadir a privacidade
Um dos desafios para as organizações é avaliar os efeitos das apostas sem criar vigilância excessiva ou violar a privacidade dos profissionais. O uso de dados individuais sobre navegação, finanças ou saúde exige cautela jurídica e ética.
Uma alternativa é acompanhar indicadores agregados já utilizados pela gestão: crescimento de retrabalho, falhas de segurança, atrasos, absenteísmo, acidentes, queda de produtividade e procura por programas de assistência.
A presença de um desses sinais não comprova que exista relação com apostas. Os dados devem servir para identificar tendências e orientar medidas preventivas, não para acusar funcionários.
Áreas com acesso a recursos financeiros, sistemas críticos, informações sigilosas ou operações de segurança podem exigir controles adicionais. O endividamento e a pressão para recuperar perdas, por exemplo, podem ampliar vulnerabilidades, mas qualquer avaliação precisa ser conduzida com critérios transparentes e respeito aos direitos do trabalhador.
Prevenção de perdas muda de foco
A expansão das bets coincide com uma transformação mais ampla da prevenção de perdas. Tradicionalmente associada à proteção de mercadorias e estoques, a área começa a observar riscos relacionados a produtividade, cultura, reputação e qualidade das decisões.
Nesse cenário, RH, compliance, segurança da informação e lideranças operacionais precisam atuar de forma integrada. O objetivo não é fiscalizar escolhas particulares, mas impedir que um problema individual se transforme silenciosamente em risco coletivo.
As apostas digitais são apenas uma manifestação dessa nova fronteira. O desafio para as empresas será proteger seus resultados sem estigmatizar pessoas — e reconhecer que algumas das perdas mais relevantes da economia conectada não desaparecem do estoque: elas se acumulam em interrupções, decisões ruins e talentos que deixaram de receber apoio no momento necessário.





