Profissionais contratados no país por empresas estrangeiras recebem mediana anualizada de US$ 53 mil; arquitetura de soluções, software, dados, infraestrutura e IA concentram algumas das maiores remunerações da América Latina.
O Brasil aparece na primeira posição da América Latina em remuneração de profissionais contratados por empresas localizadas fora de seu país de origem. No primeiro semestre de 2026, o salário-base mediano anualizado chegou a US$ 53 mil entre os trabalhadores brasileiros analisados, valor superior aos US$ 42 mil do Chile, US$ 32 mil da Argentina, US$ 26 mil do México e US$ 22 mil da Colômbia.
Os números fazem parte de um levantamento da Deel com dados de contratos gerenciados pela plataforma entre janeiro e junho de 2026. O estudo considera diferentes setores, mas a tecnologia domina a lista das ocupações mais bem remuneradas quando os cargos executivos são retirados da comparação.
No Brasil e no Chile, arquitetura de soluções ocupa a liderança. No México, o maior salário aparece em engenharia de plataforma e infraestrutura. Na Colômbia, o destaque é inteligência artificial e aprendizado de máquina. Já na Argentina, treinamento de IA e qualidade de dados aparecem no topo.
O resultado mostra que o mercado internacional deixou de procurar profissionais latino-americanos apenas como uma alternativa de baixo custo. Competências capazes de sustentar sistemas, dados, inteligência artificial e produtos digitais passaram a alcançar valores cada vez mais competitivos.
Arquitetura de soluções chega a US$ 83 mil anuais
Entre os profissionais contratados no Brasil, arquitetura de soluções registra remuneração mediana anualizada de US$ 83.429. A faixa que concentra metade dos contratos analisados vai de US$ 58 mil a US$ 108 mil.
No Chile, a mesma família ocupacional alcança mediana de US$ 65.637. A engenharia de plataforma e infraestrutura paga US$ 63.875 no México. Na Colômbia, inteligência artificial e aprendizado de máquina apresentam mediana de US$ 52.143. Treinamento de IA e qualidade de dados chegam ao mesmo valor na Argentina.
Essas funções compartilham uma característica: conectam conhecimento técnico a problemas concretos das empresas. Não basta dominar uma linguagem de programação ou uma ferramenta isolada. Os profissionais mais valorizados precisam compreender arquitetura, integração, segurança, escalabilidade, dados e impacto sobre o negócio.
“O talento latino-americano não é mais uma jogada de redução de custos. Os dados salariais mostram um mercado de talentos em amadurecimento, no qual funções especializadas alcançam remunerações competitivas globalmente”, afirma Michelle Cascardo, diretora de Desenvolvimento de Negócios para a América do Sul da Deel.
Desenvolvimento de software paga mais no Brasil
A localização do profissional continua influenciando o salário, mesmo quando o trabalho pode ser realizado remotamente. Em desenvolvimento de software, o Brasil registra remuneração mediana de US$ 66 mil por ano. México e Chile aparecem com US$ 56 mil, seguidos pela Argentina, com US$ 46 mil, e pela Colômbia, com US$ 43 mil.
Na prática, um desenvolvedor contratado no Brasil recebe, na mediana, 53% mais que um profissional da mesma área na Colômbia.
O Brasil também lidera em engenharia de dados, com US$ 66 mil anuais. Depois aparecem México, com US$ 60 mil; Chile, com US$ 54 mil; Colômbia, com US$ 49 mil; e Argentina, com US$ 48 mil.
Em gestão de produto, a diferença é menor entre os primeiros colocados. A mediana brasileira chega a US$ 65 mil, ante US$ 63 mil no Chile e US$ 59 mil no México. Colômbia e Argentina registram US$ 48 mil.
Arquitetura de soluções apresenta uma das maiores distâncias regionais. Os US$ 83 mil pagos no Brasil superam os US$ 65 mil do Chile, os US$ 52 mil do México, os US$ 51 mil da Colômbia e os US$ 48 mil da Argentina.
As diferenças mostram que o trabalho remoto ampliou o alcance das contratações, mas não criou um salário global único. Empresas continuam considerando disponibilidade de profissionais, maturidade do ecossistema tecnológico, experiência, idioma, localização e condições econômicas de cada país ao estabelecer suas propostas.
Engenharia e suporte de TI ganham valorização
O levantamento também compara a evolução da remuneração entre o primeiro semestre de 2025 e o mesmo período de 2026. No Brasil, engenharia geral e de campo apresentou crescimento de 100% na mediana salarial. Operações de marketing avançaram 34%, enquanto suporte de tecnologia da informação cresceu 32%.
O avanço de engenharia de campo e suporte de TI é relevante porque mostra valorização para além das funções associadas à programação e à inteligência artificial. À medida que empresas ampliam sua infraestrutura digital, crescem também as demandas por profissionais capazes de implementar sistemas, manter ambientes, resolver falhas e garantir que a tecnologia funcione na operação real.
Para quem trabalha no setor, o movimento reforça a importância de competências que combinam conhecimento técnico e capacidade de execução. Computação em nuvem, segurança, observabilidade, integração de sistemas, engenharia de dados, automação e domínio de ferramentas de IA tendem a ganhar valor quando aparecem associados à resolução de problemas e a resultados mensuráveis.
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Competências em inteligência artificial ganham valor e começam a produzir um prêmio salarial no mercado global.
Receber em dólar ainda faz parte da estratégia
O estudo também analisou as moedas utilizadas por prestadores de serviços internacionais. No Brasil, 58% realizaram saques em moeda local e 47% em dólar no primeiro semestre de 2026. Os percentuais não são excludentes, pois um mesmo profissional pode utilizar mais de uma moeda.
O real aparece como a moeda mais usada pelos brasileiros, seguido pelo dólar e pelo euro. A USDC lidera entre as stablecoins, enquanto o bitcoin é o criptoativo mais utilizado. Na Argentina, 93% dos prestadores sacaram em dólar, a maior taxa de dolarização entre os cinco países analisados.
Para profissionais de tecnologia que avaliam propostas internacionais, o valor anunciado no contrato não é o único elemento relevante. Taxas de conversão, custos de transferência, variação cambial, prazo de pagamento, tributação, benefícios e modalidade de contratação podem alterar significativamente a remuneração efetivamente recebida.
Também é necessário diferenciar uma contratação empregatícia de uma prestação internacional de serviços. Responsabilidades tributárias, férias, seguro, previdência, estabilidade e direitos associados ao vínculo podem variar. Comparar somente o valor bruto em dólares pode produzir uma percepção distorcida da proposta.
Tecnologia latino-americana deixa de ser “mão de obra barata”
O avanço das remunerações sinaliza uma mudança na posição da América Latina dentro do mercado global de tecnologia. A região continua oferecendo custos competitivos para empresas dos Estados Unidos e da Europa, mas especialistas em arquitetura, dados, infraestrutura e inteligência artificial já negociam em outro patamar.
Para as empresas, isso significa enfrentar uma concorrência que não se limita ao mercado local. Profissionais brasileiros podem comparar oportunidades oferecidas por organizações de diferentes países, enquanto empregadores precisam rever salários, projetos, flexibilidade e possibilidades de crescimento para manter seus talentos.
Para os profissionais, a expansão das oportunidades internacionais aumenta o potencial de remuneração, mas também eleva a exigência. Conhecimento técnico atualizado, inglês funcional, capacidade de trabalhar de forma assíncrona, documentação, comunicação e compreensão do negócio tornam-se componentes centrais de uma carreira global.
O mercado latino-americano amadureceu. A vantagem competitiva da região já não está apenas em custar menos, mas em entregar profissionais especializados capazes de desenvolver produtos, estruturar dados, integrar sistemas e transformar tecnologia em resultado.
Fonte: “Remuneração na LATAM: o panorama regional”, Deel, primeiro semestre de 2026. O levantamento reúne dados internos de trabalhadores contratados por empresas localizadas fora de seu país de origem e gerenciados pela plataforma na Argentina, no Brasil, no Chile, na Colômbia e no México. Foram consideradas apenas posições com pelo menos 50 contratos. Os números não representam todo o mercado de tecnologia ou de trabalho da região.




