Dados do IBGE mostram que apenas 37,3% das empresas empregadoras sobrevivem cinco anos no país, reforçando a urgência de planejamento estruturado.
A virada para 2026 consolidou uma mudança no discurso empresarial: metas genéricas deram lugar à definição objetiva de ponto de partida e destino estratégico. O movimento ocorre em um ambiente de alta mortalidade empresarial. Segundo o IBGE, apenas 37,3% das empresas empregadoras nascidas em 2017 permaneciam ativas em 2022, o que significa que quase 63% encerraram as atividades antes de completar cinco anos, conforme a pesquisa Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo 2022.
Carla Martins, especialista em gestão estratégica e crescimento sustentável de empresas, e vice-presidente do SERAC, hub de soluções corporativas com atuação nas áreas contábil, jurídica, educacional e de tecnologia, avalia que os números revelam um problema estrutural no ambiente empresarial brasileiro. “Grande parte das empresas não fecha por falta de esforço, mas por falta de clareza estratégica. Elas operam, faturam, mas não constroem sustentabilidade”, afirma.
Ela explica que o início do ano costuma ser tratado como momento de definição de metas, mas alerta para um equívoco recorrente. “Muitas empresas falam em crescimento sem saber exatamente qual é o seu ponto A e qual é o ponto B. Sem essa consciência, qualquer meta vira intenção abstrata. Clareza significa traduzir ambição em números, indicadores e processos.”
No atendimento a milhares de empresas de diferentes portes, o SERAC observa que o crescimento desorganizado é um dos fatores que mais fragilizam negócios. Faturamento aumenta, equipe cresce, mas a estrutura financeira, jurídica e operacional não acompanha. “O automático mantém a empresa viva. A construção exige método. Quando não há leitura real de margem, custo e posicionamento, qualquer oscilação econômica vira ameaça”, afirma.
Antes de apresentar caminhos práticos, Carla destaca que clareza não é planejamento estático, mas processo contínuo de alinhamento entre visão, dados e execução.
- Definir o ponto A com base em dados concretos
O primeiro passo é mapear a realidade financeira e operacional do negócio. Isso inclui fluxo de caixa, margem de contribuição, estrutura de custos e perfil de clientes. “Sem diagnóstico, qualquer estratégia é frágil. Clareza começa pela verdade dos números”, afirma. - Estabelecer um ponto B mensurável
Crescimento pode significar aumento de margem, ganho de eficiência ou expansão de mercado. O importante é que o objetivo seja específico e conectado à estratégia. “Quando o destino é claro, as decisões do dia a dia deixam de ser impulsivas e passam a ser direcionadas.” - Traduzir estratégia em processos estruturados
Visão sem execução não sustenta resultado. Para isso, é necessário detalhar responsabilidades, criar indicadores e formalizar rotinas. “Estratégia precisa virar processo. Caso contrário, a empresa depende exclusivamente do dono.” - Buscar apoio técnico qualificado
Contratar uma consultoria ou hub especializado exige critério. É fundamental avaliar experiência, integração entre áreas e capacidade de diagnóstico. “O parceiro certo provoca reflexão estratégica. Não é sobre terceirizar tarefas, mas sobre ampliar visão.” - Revisar indicadores de forma periódica
Diante de juros elevados, crédito restrito e variações de consumo, revisar números com frequência reduz riscos. “Clareza não é rigidez. É capacidade de ajustar rota sem perder o destino”, diz.
Entre os benefícios apontados estão previsibilidade financeira, decisões mais assertivas e maior engajamento da equipe. Segundo a executiva, quando o direcionamento é transparente, colaboradores entendem prioridades e metas. “Pessoas trabalham melhor quando compreendem o propósito e o caminho da empresa.”
Ela reconhece que o processo pode revelar fragilidades, como margens apertadas ou dependência excessiva de poucos clientes. Ainda assim, sustenta que enfrentar esses pontos é menos oneroso do que ignorá-los. “Clareza antecipa problemas e evita decisões emergenciais.”
Para 2026, a avaliação é que empresas que continuarem operando no piloto automático terão dificuldade em um ambiente de margens pressionadas e alta concorrência. Já aquelas que transformarem clareza em ativo estratégico tendem a construir base mais sólida para expansão. “Sobreviver exige esforço. Construir exige método. A diferença está na clareza”, conclui.
