Para Carlos Eduardo Maia, diretor de Recursos Humanos da Positivo Tecnologia, sistemas lentos, processos fragmentados e fricção digital silenciosa já comprometem produtividade, engajamento e competitividade na disputa por profissionais qualificados.
Em um mercado que fala cada vez mais sobre experiência do colaborador, marca empregadora, produtividade e retenção de talentos, um tema começa a ganhar peso estratégico dentro das empresas: a experiência digital no trabalho. Mais do que uma questão de tecnologia ou suporte operacional, o ambiente digital já influencia a forma como profissionais avaliam a empresa, constroem sua rotina de trabalho e decidem permanecer — ou sair.
Para Carlos Eduardo Maia, diretor de Recursos Humanos da Positivo Tecnologia, muitas organizações ainda subestimam o impacto da fricção digital sobre a jornada do colaborador. Segundo ele, sistemas lentos, múltiplos logins, processos manuais, ferramentas desconectadas e baixa integração entre plataformas criam uma experiência frustrante que, somada ao longo do tempo, compromete não apenas a produtividade, mas também a percepção de valor da empresa.
“Hoje, o colaborador compara a experiência que vive dentro da empresa com a fluidez das plataformas digitais que utiliza fora dela. Quando encontra sistemas travados, processos burocráticos e falta de integração, isso gera frustração e perda de produtividade imediata. Isoladamente, pode parecer um detalhe, mas, no acumulado, compromete a percepção de eficiência e de respeito ao tempo do profissional”, afirma Maia.
Talentos digitais já não toleram o atrito que gerações anteriores aceitaram
Na avaliação do executivo, esse impacto tende a se tornar ainda mais visível com a entrada crescente das Gerações Z e Alpha no mercado de trabalho. Por serem nativos digitais, esses profissionais chegam com expectativas diferentes em relação ao uso da tecnologia. Têm pouca tolerância para sistemas desajeitados, fluxos pouco intuitivos e soluções improvisadas que exigem esforço excessivo para tarefas básicas.
Esse movimento muda o lugar da experiência digital dentro da gestão de pessoas. O que antes era visto por muitas empresas como infraestrutura de apoio ou centro de custo passa a funcionar como parte real da proposta de valor ao colaborador.
Ambiente digital deixa de ser suporte e vira diferencial competitivo
Segundo Carlos Eduardo Maia, nas organizações mais maduras o ambiente digital da empresa já é tratado como diferencial competitivo real para atração e retenção. Isso porque ele impacta diretamente produtividade, inovação, colaboração entre áreas e velocidade de resposta ao mercado. Já nas empresas que ainda operam sob uma lógica mais tradicional, a experiência digital continua sendo tratada apenas como uma camada operacional.
Essa diferença de visão, afirma ele, produz um descompasso competitivo relevante. De um lado, companhias que estruturam o Digital Workplace como ativo estratégico avançam em eficiência e atratividade. De outro, empresas que mantêm foco apenas na manutenção técnica tendem a acumular frustração, perda de engajamento e dificuldade crescente para competir por profissionais qualificados.
Salário importa, mas não resolve sozinho um ecossistema digital ruim
O peso dessa experiência na decisão de permanência já aparece de forma mais concreta. Segundo Carlos Eduardo Maia, profissionais qualificados procuram ambientes em que consigam performar com autonomia, agilidade e foco em entrega de valor. Quando percebem que a estrutura digital gera retrabalho, atrasos e limitações constantes, a motivação se deteriora e a perspectiva de crescimento perde força.
O texto também menciona um estudo da Workplace365, de março de 2025, segundo o qual mais de 50% dos trabalhadores afirmam que deixariam o emprego se os sistemas de TI fossem muito complicados, especialmente quando exigem múltiplos aplicativos desconectados ou fricção digital recorrente. Maia destaca que esse dado reforça uma mudança importante: o salário continua relevante, mas a possibilidade de trabalhar em um ecossistema eficiente e moderno se tornou fator decisivo de permanência.
Carreira atrai, mas a rotina digital decide
Na disputa por talentos, o executivo afirma que proposta de carreira e experiência digital já não podem ser analisadas separadamente. A carreira atrai no primeiro momento, mas é a experiência concreta no dia a dia que sustenta a decisão de permanecer. Se a organização promete agilidade, inovação e protagonismo, mas entrega um ambiente fragmentado, burocrático e difícil de navegar, instala-se uma ruptura entre discurso e prática. E essa incoerência mina retenção, confiança e marca empregadora.
Tecnologia ruim também revela falhas de cultura, liderança e estratégia
Para Maia, um ambiente digital ruim raramente é apenas um problema técnico. Na maior parte dos casos, ele reflete escolhas estratégicas, ausência de governança integrada e uma visão ainda limitada do papel da tecnologia no negócio. Quando a alta gestão não assume protagonismo sobre o ambiente digital, esse ecossistema evolui de forma fragmentada, reativa e pouco coerente com a experiência que a empresa deseja oferecer.
Ele observa que empresas mais maduras concentram os desafios de Digital Workplace e Experiência Digital do Colaborador sob responsabilidade de um único proprietário executivo. Essa consolidação, segundo ele, permite à organização sair do modelo de “manter as luzes acesas” e migrar para uma atuação mais orientada à inovação, autonomia e experiência.
RH precisa assumir a experiência digital como agenda de pessoas
Na leitura do diretor de RH da Positivo Tecnologia, a área de Recursos Humanos já vem ampliando seu papel estratégico, mas ainda há espaço para integração mais profunda com tecnologia e negócios. A experiência digital, afirma, já faz parte da proposta de valor ao colaborador, mesmo quando não é formalmente tratada dessa forma. À medida que passa a impactar performance, engajamento e reputação empregadora, torna-se essencial que RH, TI e liderança atuem juntos no desenho dessa jornada.
O problema é que a experiência digital ainda não tem dono
Para Maia, uma das razões pelas quais tantas empresas ainda tratam esse tema como secundário é o fato de que, na prática, a Digital Employee Experience (DEX) não tem um responsável claro. Ela costuma sobreviver em um limbo entre TI, RH e Facilities. Nesse cenário, a TI responde por ferramentas, o RH por pessoas e o colaborador fica no meio, lidando com uma fricção invisível que drena produtividade, reduz foco e compromete o estado de fluxo no trabalho.
Mas há um terceiro elemento decisivo nessa equação: o líder imediato. Segundo ele, é o gestor quem, no cotidiano, traduz o ambiente digital para a equipe. Se esse líder não entende as ferramentas, não modela comportamentos digitais saudáveis e não protege o tempo da equipe contra excesso de notificações e reuniões desnecessárias, qualquer investimento em plataforma perde força. “O engajamento não nasce da tecnologia. Nasce da percepção de que o trabalho tem sentido, de que há autonomia e de que o líder cria condições reais para que o melhor aconteça”, resume.
RH, TI e liderança precisam operar como tripé estratégico
Para evoluir, afirma Maia, as empresas precisam abandonar a lógica em que ferramentas digitais são tratadas como utensílios de escritório e passar a dirigir a jornada do colaborador com governança intencional. Isso exige a unificação da visão entre CIO e CHRO, com metas que conectem segurança, adoção e experiência. Mas essa arquitetura só ganha vida quando os líderes de linha são preparados, responsabilizados e apoiados para exercer papel de mediação digital com suas equipes.
Sem esse tripé — governança executiva conjunta, desenho intencional da experiência e liderança habilitada — o Digital Workplace tende a continuar sendo um gerador de dívida sistêmica e desengajamento, e não uma vantagem competitiva duradoura.
A guerra por talentos também é uma guerra por fluidez digital
No fim, a análise de Carlos Eduardo Maia reforça uma mudança que começa a se consolidar no mercado de trabalho: a guerra por talentos já não se vence apenas com salário, benefícios ou discurso de inovação. Ela passa, também, pela qualidade do ecossistema digital oferecido ao profissional.
Em um contexto de transformação contínua, empresas que desejam atrair, engajar e reter pessoas qualificadas precisarão tratar a experiência digital do colaborador como um tema estratégico de RH e tecnologia. Porque, na prática, é nesse ambiente que o trabalho acontece, a cultura se manifesta e a proposta de valor da empresa é testada todos os dias.

