A inteligência artificial já faz parte da rotina das escolas brasileiras, ainda que muitas instituições não tenham definido regras ou estratégias pedagógicas para sua utilização. Para Patrícia Aiello, presidente do Instituto Brasil Inovação, tentar impedir o acesso à tecnologia não responde ao principal desafio da educação: ensinar estudantes e professores a utilizá-la com consciência.
“A IA entrou nas escolas independentemente de estarmos preparados para isso ou não. A pergunta deixou de ser se devemos usar e passou a ser como transformar a tecnologia em aliada do aprendizado sem comprometer o pensamento crítico”, afirma.
A avaliação encontra respaldo em pesquisas recentes. Levantamento da Fundação Itaú mostrou que 84% dos estudantes e 79% dos professores já utilizaram ferramentas de inteligência artificial. O estudo ouviu 1.947 alunos, 240 docentes e 156 gestores de 142 escolas. Fundação Itaú
Outra pesquisa, conduzida pelo Cetic.br, identificou que 70% dos estudantes do Ensino Médio usuários de internet recorrem a plataformas de IA generativa para realizar pesquisas escolares. Apesar da adesão, somente 32% afirmaram ter recebido orientação na escola sobre como usar essas ferramentas. Cetic.br
Tecnologia avança mais rápido que a orientação
Para Patrícia, a distância entre uso e orientação revela que a discussão educacional está atrasada em relação ao comportamento dos próprios estudantes.
Ferramentas como ChatGPT, Copilot e Gemini são utilizadas para pesquisar, resumir conteúdos, responder dúvidas e auxiliar na produção de trabalhos. Sem mediação, porém, alunos podem aceitar respostas incorretas, superficiais ou descontextualizadas como se fossem informações confiáveis.
“A escola precisa formar cidadãos capazes de questionar respostas prontas, verificar informações e compreender os limites da tecnologia”, defende Patrícia.
A preocupação vai além dos erros factuais. O uso indiscriminado pode estimular dependência, reduzir o esforço autoral e prejudicar o desenvolvimento de competências como escrita, argumentação, criatividade e resolução de problemas.
Também existem riscos relacionados à privacidade. Estudantes e professores podem inserir informações pessoais, trabalhos, avaliações e dados escolares em plataformas externas sem saber como esse conteúdo será armazenado ou utilizado.
IA pode apoiar a aprendizagem
Apesar dos riscos, Patrícia considera que a inteligência artificial possui potencial para ampliar oportunidades educacionais. A tecnologia pode ajudar a personalizar conteúdos, adaptar exercícios e identificar dificuldades específicas.
Na prática, um estudante com problemas em determinado conteúdo pode receber novas explicações e atividades de reforço. Já alunos com maior domínio do assunto podem acessar desafios adicionais, reduzindo as limitações de um modelo de ensino totalmente padronizado.
A IA também pode colaborar com professores na elaboração de materiais, planejamento de aulas, organização de conteúdos e análise do desempenho das turmas. Esse apoio pode reduzir parte da carga operacional que acompanha o trabalho docente.
A pesquisa da Fundação Itaú mostra que 73% dos professores usam IA como suporte para atividades em sala de aula, enquanto 76% recorrem à tecnologia para criar materiais pedagógicos.
“Não basta testar novas ferramentas. É preciso definir qual problema pedagógico será resolvido e como os resultados serão avaliados”, destaca Patrícia.
Professor permanece insubstituível
Para a presidente do Instituto Brasil Inovação, nenhuma tecnologia consegue substituir a escuta, a sensibilidade e a construção de vínculos proporcionadas pelo educador.
A disponibilidade imediata de informações torna a atuação docente ainda mais estratégica. O professor passa a orientar os estudantes sobre como formular perguntas, comparar fontes, reconhecer vieses e verificar a confiabilidade das respostas.
“A inteligência artificial pode apoiar o processo, mas não ocupa o espaço da mediação humana. O protagonismo da educação continuará sendo das pessoas, e não das máquinas”, afirma.
Esse novo cenário também exige mudanças nas avaliações. Trabalhos baseados apenas na entrega de um texto pronto podem não demonstrar o que o aluno realmente aprendeu. Atividades desenvolvidas por etapas, apresentações orais e acompanhamento do processo de pesquisa podem ajudar o professor a avaliar raciocínio, autoria e compreensão.
Formação docente precisa avançar
A capacitação dos educadores é apontada por Patrícia como condição indispensável para a adoção responsável da IA. Sem formação, professores podem oscilar entre a proibição total e a aceitação indiscriminada.
As escolas precisam estabelecer regras claras sobre quando a tecnologia pode ser utilizada, como seu uso deve ser informado e quais atividades exigem produção integralmente autoral. Também devem orientar as equipes sobre proteção de dados e critérios para escolher plataformas.
Na pesquisa da Fundação Itaú, 84% dos professores concordaram que o currículo escolar precisa ser atualizado para preparar os estudantes para uma interação crítica com a IA. Entre os gestores, a proporção chegou a 90%.
A Unesco também recomenda uma abordagem centrada nas pessoas, adequada à idade dos estudantes e acompanhada de proteção da privacidade, formação docente e avaliação ética das ferramentas. Unesco
Orientação nacional
Em 2026, o Ministério da Educação disponibilizou o documento “Inteligência Artificial na Educação Básica”, com orientações sobre caminhos curriculares e práticas éticas. O material diferencia o ensino sobre IA, destinado à compreensão da tecnologia e de seus impactos, do ensino com IA, no qual as ferramentas apoiam atividades pedagógicas. Ministério da Educação
Para Patrícia, o posicionamento institucional é um avanço, mas terá de ser acompanhado por ações concretas nas redes de ensino.
Inserir uma plataforma na escola não representa inovação por si só. A transformação depende de objetivos pedagógicos, preparação dos educadores, inclusão digital e mecanismos que garantam segurança e responsabilidade.
“A inteligência artificial pode transformar positivamente a educação, desde que o desenvolvimento humano permaneça no centro do processo”, conclui Patrícia.





