Avanço dos ataques digitais, endurecimento regulatório e pressão por ética e sustentabilidade mudam a forma como empresas e governos adotam tecnologia até 2026.
A incorporação acelerada da inteligência artificial aos ambientes corporativos, combinada ao avanço dos ataques cibernéticos, ao endurecimento regulatório e à pressão por sustentabilidade, está levando empresas e governos da América Latina a um ponto de inflexão. Mais do que adotar novas ferramentas, o desafio passa a ser estrutural: repensar modelos de segurança, governança e responsabilidade digital em um cenário de riscos cada vez mais sofisticados.
A avaliação é de Sandro Tonholo, Territory Manager da Infoblox no Brasil. Segundo ele, organizações que não avançarem de forma consistente nessa agenda tendem a se expor não apenas a falhas técnicas, mas também a riscos legais e reputacionais.
“O debate sobre tecnologia deixa de ser encantamento com inovação e passa a exigir decisões estratégicas sobre proteção, ética e governança”, afirma.
A seguir, os principais vetores que devem moldar o ambiente tecnológico latino-americano até 2026.
A IA como multiplicadora de ameaças
Os ataques cibernéticos devem ganhar novo perfil nos próximos anos, impulsionados pelo uso intensivo de inteligência artificial por grupos criminosos. Campanhas de phishing mais convincentes, exploração automatizada de vulnerabilidades e ataques em larga escala já começam a tornar obsoletos os modelos tradicionais de defesa.
Nesse contexto, empresas precisarão adotar abordagens baseadas em inteligência preditiva e respostas automatizadas. A incapacidade de acompanhar esse ritmo tende a ampliar riscos regulatórios e problemas de conformidade.
Escalada de ataques e reação regional
Dados de 2025 indicam um aumento de quase 40% nos ataques cibernéticos na América Latina, com média semanal superior a 2.700 incidentes, acima do padrão global. Parte desses ataques já utiliza IA e técnicas como deepfakes, inclusive em contextos sensíveis, como processos eleitorais na Argentina, no México e na Colômbia.
Em resposta, governos e startups intensificam iniciativas locais. Programas como o Google for Startups passaram a apoiar empresas da região no desenvolvimento de soluções de segurança baseadas em IA, sinalizando a necessidade de estratégias adaptadas às especificidades latino-americanas.
Regulamentação mais rígida
O ambiente regulatório também se torna mais exigente. No Brasil, a evolução da Estratégia Nacional de Cibersegurança e a aplicação mais rigorosa da LGPD reforçam a demanda por governança sobre o uso da inteligência artificial, incluindo controle de riscos e responsabilização de fornecedores.
Movimentos semelhantes avançam no México, Chile, Colômbia, Panamá, Paraguai e Costa Rica. Para as empresas, compliance deixa de ser acessório e passa a exigir monitoramento contínuo e modelos de confiança adaptativos.
DNS no centro da defesa digital
Antes visto como um componente técnico, o DNS passa a ocupar posição estratégica na segurança cibernética. Mais da metade dos ataques de phishing na região explora fragilidades nessa camada, embora apenas cerca de 20% das empresas utilizem inteligência de DNS de forma efetiva.
Iniciativas lideradas por CERTs nacionais e entidades como o NIC.br buscam ampliar a adoção dessa abordagem, que tende a se tornar requisito básico em estratégias de segurança mais maduras.
Automação para enfrentar a falta de talentos
A escassez de profissionais em cibersegurança segue como gargalo estrutural. Programas de capacitação regional e iniciativas como o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial buscam mitigar o problema, mas, no curto prazo, a automação se impõe como solução prática.
Centros de operações de segurança (SOCs) apoiados por IA, alertas inteligentes e respostas automáticas permitirão manter níveis adequados de proteção mesmo com equipes reduzidas.
Sustentabilidade entra na pauta tecnológica
A agenda de Green IT ganha centralidade. Países latino-americanos avançam em mercados de carbono e exigências de reporte ambiental, alinhadas a padrões globais. No Brasil, novas regras pressionam empresas a divulgar riscos climáticos e emissões, movimento acompanhado por Chile, Colômbia, México e Peru.
Investimentos em data centers sustentáveis e rastreamento transparente de emissões passam a ser vistos não apenas como exigência regulatória, mas como diferencial competitivo.
Ética e tecnologia centrada nas pessoas
Com a IA cada vez mais presente nas decisões corporativas, o debate ético ganha protagonismo. Empresas precisarão estabelecer diretrizes claras sobre transparência, equidade e mitigação de vieses, indo além do simples cumprimento regulatório.
“A inovação centrada no ser humano deixa de ser apenas uma escolha moral e passa a representar vantagem competitiva”, afirma Tonholo. “A confiança será um ativo tão importante quanto a eficiência.”
O conjunto dessas transformações indica que, até 2026, a tecnologia na América Latina será menos definida pela velocidade de adoção e mais pela capacidade de integrar segurança, ética e sustentabilidade em modelos de governança sólidos.
