Com os avanços na IA, agora ela já é capaz de realizar tarefas mais complexas, tomar decisões, executar fluxos e aprender a partir do contexto em que está inserida.
Vinícius Guedes é CEO da Volund.
Nos últimos anos, a inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para se estabelecer como presença concreta no cotidiano de empresas e profissionais. Ela chegou como copiloto, fazendo automações simples e rápidas, ganhou espaço e se consolidou como uma ferramenta de apoio poderosa. O que começa a ficar claro agora, porém, é que essa não é sua forma final. Estamos entrando em uma nova fase, a da IA agêntica, em que a tecnologia deixa de apenas assistir para começar a conduzir partes do trabalho.
Em 2024, cerca de 61% das empresas norte-americanas planejavam usar a IA para realizar funções, desde pagar fornecedores até fazer relatórios financeiros, de acordo com uma pesquisa divulgada pela Universidade Duke. De lá para cá, acompanhamos uma mudança profunda no mercado e no dia a dia do trabalho, e seu protagonismo aumentou. Hoje, segundo um relatório da Avantia, 100% das empresas consideram inteligência artificial relevante e, para 95,2% das organizações, essa inovação é a principal prioridade para 2026.
Com os avanços na IA, agora ela já é capaz de realizar tarefas mais complexas, tomar decisões, executar fluxos e aprender a partir do contexto em que está inserida. Se a IA generativa marcou uma fase voltada à criação de conteúdo, a nova etapa aponta para algo mais estrutural: a execução de ações. A mudança mais relevante já não está apenas em produzir textos, imagens ou código, mas em sistemas capazes de interpretar objetivos, organizar etapas e operar fluxos em projetos completos e com autonomia crescente.
E não se trata de uma evolução incremental. O que começa a ganhar espaço são sistemas capazes de tomar decisões operacionais com menor dependência humana. Ou seja, saímos da automação de tarefas para a automação de raciocínios operacionais.
Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: no trabalho, o ser humano pode passar de executor central a suporte estratégico da inteligência artificial? Essa possibilidade já não parece mais tão distante. À medida que os agentes ganham autonomia, cresce também a necessidade de profissionais capazes de supervisionar, validar, direcionar e responder pelas decisões que a tecnologia executa em escala.
Os ganhos potenciais desse avanço são expressivos. Os agentes podem elevar a produtividade, ampliar o volume de entregas e reduzir significativamente o tempo entre planejamento e execução. Um exemplo claro está no setor de desenvolvimento de software. Projetos que antes exigiam meses de trabalho já começam a ser estruturados em ciclos muito mais curtos de duas semanas, por exemplo, com etapas automatizadas desde a concepção até testes, ajustes e entrega. E o que hoje é uma vantagem competitiva, em breve será o padrão operacional.
Assim, o principal desafio das organizações já não é mais o acesso à tecnologia, mas a capacidade de gestão. É necessário ter clareza de onde se quer chegar. À medida que as ferramentas se tornam mais acessíveis, o diferencial competitivo passa a estar cada vez mais em saber onde aplicá-las, com quais limites, quais critérios de validação e com que nível de autonomia.
Essa mudança também reposiciona o valor do trabalho humano. Com a evolução dos agentes, os profissionais tendem a se tornar menos executores e mais estrategistas, o que exige pensamento crítico, visão de negócio e capacidade de direcionar sistemas com clareza. O que antes era visto como produtividade individual passa, cada vez mais, a depender da habilidade de enxergar de forma holística.
A ascensão da IA agêntica representa, portanto, mais do que um avanço tecnológico. Ela marca uma mudança estrutural na forma como o trabalho é concebido. Nesta nova fase, o diferencial humano não estará em competir com a máquina na operação, mas em saber orquestrar, com inteligência e responsabilidade, aquilo que ela torna possível com muito mais agilidade.
