Engenharia de Software passa a exigir uma combinação de programação, segurança, pensamento crítico, visão de negócio e capacidade para avaliar sistemas automatizados.
A inteligência artificial está modificando a rotina de quem trabalha com desenvolvimento de software. Ferramentas capazes de gerar códigos, automatizar testes, produzir documentação e analisar requisitos reduzem o tempo dedicado a determinadas tarefas, mas também aumentam a responsabilidade dos profissionais sobre segurança, qualidade e contexto de negócio.
Nesse cenário, as empresas deixam de procurar somente pessoas capazes de programar e passam a valorizar profissionais que saibam integrar sistemas, interpretar problemas complexos, avaliar respostas produzidas pela IA e compreender os impactos de uma aplicação em produção.
Para Rodrigo Fiorin, coordenador do curso de Engenharia de Software do UniBrasil Centro Universitário, a mudança desloca o foco da execução repetitiva para atividades que dependem de análise e tomada de decisão.
“O mercado passa a valorizar menos a execução repetitiva e mais a capacidade de pensar, decidir e se comunicar. Isso exige uma formação sólida em computação, mas também em aspectos humanos, éticos, sociais e empreendedores”, afirma.
Mercado continua demandando profissionais
A transformação das competências acontece enquanto o setor mantém uma procura elevada por talentos. Dados da Brasscom frequentemente citados nesse debate apontam uma média de 53 mil formados anualmente em cursos com perfil tecnológico diante de uma demanda estimada em 159 mil profissionais por ano.
Esses números, entretanto, precisam ser contextualizados. O estudo da Brasscom foi divulgado em dezembro de 2021 e projetava a necessidade de 797 mil talentos entre 2021 e 2025. Portanto, a estimativa de 159 mil representa uma média anual para aquele período, e não o estoque atual de vagas abertas no país.
Indicadores mais recentes confirmam o crescimento do emprego, ainda que utilizem outro recorte. Conforme reportagem do Mundo RH, o Brasil alcançou 750.485 trabalhadores formais vinculados a empresas de tecnologia da informação em abril de 2026.
O número de empregos cresceu 3% em 12 meses e 3,4% nos quatro primeiros meses do ano. O levantamento não inclui necessariamente os profissionais de tecnologia empregados em bancos, indústrias, varejistas e organizações classificadas em outros setores econômicos.
Empresas encontram dificuldade para contratar
O desafio não está apenas na quantidade de candidatos. Pesquisa da Ford em parceria com o Datafolha, apresentada pelo Tec Login, mostrou que 98% das 250 empresas consultadas enfrentavam alguma dificuldade para contratar profissionais de tecnologia.
A falta de conhecimento técnico foi apontada por 72% das organizações, enquanto 54% mencionaram a ausência de experiência. Somente 14% afirmaram conseguir concluir uma contratação em menos de um mês.
O levantamento também identificou a valorização de inglês, competências comportamentais e uma formação técnica mais ampla. Os resultados indicam que o chamado apagão de talentos não pode ser explicado somente pelo número de profissionais disponíveis, mas também pelo desalinhamento entre a formação, a experiência e as exigências das vagas.
Programar continua importante, mas não basta
O conhecimento de linguagens, algoritmos, bancos de dados e estruturas de desenvolvimento permanece essencial. A diferença é que o engenheiro de software passa a operar em um ambiente no qual parte do código pode ser sugerida ou produzida por ferramentas automatizadas.
O profissional precisa saber avaliar se a solução está correta, segura, eficiente e adequada ao problema apresentado. Também deve identificar vulnerabilidades, dependências inadequadas, erros de lógica, vieses e possíveis violações de privacidade.
Entre os conhecimentos que ganham relevância estão:
- Arquitetura e integração de sistemas;
- Segurança da informação e proteção de dados;
- Engenharia de requisitos;
- Qualidade e testes de software;
- Inteligência artificial e engenharia de prompts;
- Experiência do usuário;
- Ética, conformidade e responsabilidade tecnológica;
- Comunicação, pensamento crítico e visão de negócio.
O relatório de habilidades em alta do LinkedIn, abordado pelo Mundo RH, reforça essa combinação. Estratégia de IA, engenharia de software, APIs, gestão de projetos, dados, cibersegurança e competências comportamentais aparecem entre as áreas de maior relevância para o mercado brasileiro.
IA vai substituir desenvolvedores?
A capacidade da IA de produzir códigos alimenta dúvidas sobre o futuro das carreiras em tecnologia. Para Fiorin, as ferramentas disponíveis atualmente transformam as atribuições, mas não eliminam a necessidade de profissionais qualificados.
“A IA generativa já cria trechos de código, automatiza testes, gera documentação e auxilia na análise de requisitos. Mas ela não entende, por si só, o contexto do negócio, as restrições legais, as questões éticas e os impactos sociais de um sistema em produção”, avalia.
A declaração representa a análise do professor e não elimina a possibilidade de automação de tarefas ou de reorganização das equipes. Funções concentradas em atividades repetitivas podem perder espaço, enquanto crescem as responsabilidades relacionadas a arquitetura, validação, integração, segurança e supervisão.
O desafio passa a ser verificar o trabalho produzido pela tecnologia. Um código funcional pode conter falhas de segurança, utilizar componentes inadequados ou não atender às necessidades do usuário. A velocidade de geração, portanto, não substitui os processos de revisão e controle.
O Tec Login já mostrou que saber trabalhar com IA está se tornando critério de contratação. Mais do que dominar uma plataforma, as empresas procuram profissionais capazes de fazer boas perguntas, avaliar resultados e transformar as respostas dos sistemas em decisões aplicáveis.
Formação acadêmica tenta acompanhar a mudança
Instituições de ensino também começaram a revisar conteúdos e metodologias. No curso de Engenharia de Software do UniBrasil, segundo Fiorin, a matriz curricular permite atualizações por meio de disciplinas optativas, projetos interdisciplinares e práticas profissionais.
Os estudantes desenvolvem projetos voltados a desafios apresentados por empresas e pela comunidade. A formação também inclui quatro Projetos de Extensão, entre eles uma iniciativa dedicada ao debate sobre tecnologia, inteligência artificial, ética e responsabilidade social.
“Em vez de escrever tudo linha por linha, o engenheiro passa a planejar sistemas, validar soluções sugeridas pela inteligência artificial e cuidar dos aspectos que a máquina não alcança: contexto humano, segurança, ética e qualidade”, explica Fiorin.
A graduação, contudo, representa apenas uma parte da preparação. O Future of Jobs Report 2025, citado pelo Tec Login, mostra que 85% dos empregadores consultados pretendem priorizar a capacitação das equipes e que 39% das competências consideradas centrais deverão mudar até 2030.
Na Engenharia de Software, a tendência é que a aprendizagem contínua deixe de ser um diferencial e se transforme em requisito permanente. O profissional valorizado não será apenas aquele que sabe programar, mas quem consegue compreender o problema, comandar as ferramentas, questionar os resultados e assumir responsabilidade pelas soluções colocadas em funcionamento.




