Founder e co-CEO da TrueChange aponta Pix, Open Finance e digitalização bancária como vantagens, mas alerta que protagonismo dependerá da integração entre dados, agentes e governança.
O Brasil pode não liderar a construção dos maiores modelos de inteligência artificial, mas reúne condições para assumir protagonismo na aplicação da tecnologia ao sistema financeiro. A avaliação é de Tiago Farias, founder e co-CEO da TrueChange.
Para o executivo, a vantagem brasileira está na combinação entre pagamentos instantâneos em larga escala, compartilhamento regulado de dados, consumidores digitalizados e instituições financeiras com capacidade de investimento. Essa infraestrutura permite imaginar agentes de IA que não apenas produzam análises, mas consultem informações, coordenem processos e executem operações.
A oportunidade, porém, não representa uma liderança já conquistada. Segundo Farias, o avanço dependerá da capacidade de conectar sistemas, dados e agentes com segurança, rastreabilidade e supervisão humana.
Pix oferece escala para novos serviços
O Pix é a parte mais visível dessa infraestrutura. De acordo com os dados do Banco Central, mais de 170 milhões de pessoas físicas utilizam o sistema, número equivalente a aproximadamente 80% da população brasileira. Somente em maio de 2026, foram registradas mais de 7 bilhões de transações.
Na análise de Farias, essa escala cria um ambiente favorável ao desenvolvimento de serviços financeiros inteligentes. Bancos e fintechs processam milhões de pagamentos, transferências e interações digitais, gerando informações que podem apoiar a identificação de fraudes, a avaliação de riscos e a personalização de ofertas.
O uso desses dados, ressalta o executivo, precisa respeitar consentimento, finalidade e regras de proteção da informação.
Além de ampliar a infraestrutura financeira, o Pix mudou a expectativa do consumidor. Quem transfere dinheiro em segundos tende a aceitar cada vez menos processos que levam dias para analisar crédito, contestar um pagamento ou liberar um produto.
Para Farias, o desafio será transformar a velocidade dos pagamentos instantâneos em padrão para toda a jornada financeira.
Open Finance amplia visão sobre o cliente
Outro diferencial brasileiro está no Open Finance, sistema que permite ao cliente autorizar o compartilhamento de informações entre instituições reguladas.
O modelo reduz a dependência do histórico mantido por um único banco. Com autorização, dados provenientes de diferentes contas, cartões, empréstimos e investimentos podem compor uma visão mais ampla da situação financeira do consumidor.
O Banco de Compensações Internacionais já classificou o modelo brasileiro como referência global, destacando sua abrangência e quantidade de instituições participantes.
Segundo Farias, essa interoperabilidade pode tornar as análises de IA mais contextualizadas. Um sistema que conhece apenas as movimentações internas de uma instituição trabalha com informações incompletas. Com dados autorizados de diferentes fontes, pode apoiar decisões mais próximas da realidade do cliente.
A ampliação do contexto, entretanto, também aumenta a responsabilidade das instituições. Decisões sobre crédito, seguros ou investimentos precisam ser explicáveis, contestáveis e compatíveis com a autorização concedida pelo consumidor.
Celular concentra relação com os bancos
O comportamento dos brasileiros também favorece a adoção de novos serviços. A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 mostra que 83% das transações bancárias já são realizadas pelo celular ou internet banking.
O mobile banking registrou 187,5 bilhões de operações em 2025, após crescer 169% em cinco anos. O celular deixou de funcionar apenas como canal de atendimento e passou a ocupar o centro da relação entre clientes e instituições.
Para Farias, essa familiaridade com serviços digitais abre espaço para assistentes e agentes capazes de responder dúvidas, organizar informações, recomendar ações e conduzir etapas de processos financeiros.
A aceitação, contudo, dependerá da confiança. Sistemas que afetam o patrimônio das pessoas precisarão informar o que estão fazendo, solicitar confirmação quando necessário e permitir intervenção humana.
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Investimento cresce mais rápido que a escala
Os bancos brasileiros também dispõem de recursos para financiar a transformação. A Febraban estima que o orçamento do setor para tecnologia alcance R$ 50,4 bilhões em 2026, crescimento acumulado de 58% em cinco anos.
Em 2025, os investimentos específicos em inteligência artificial avançaram 39% e chegaram a R$ 826 milhões.
As fintechs seguem na mesma direção. A Pesquisa Fintechs de Crédito Digital 2026, da PwC, identificou que 62% das empresas consultadas já utilizam IA. Outras 96% pretendem implementar ou ampliar a tecnologia nos próximos dois anos.
Os números indicam interesse e capacidade de investimento, mas ainda não comprovam maturidade operacional. Cerca de 60% dos bancos brasileiros permanecem nas fases iniciais de utilização da IA, enquanto apenas 20% afirmam empregar a tecnologia em larga escala para melhorar a experiência do cliente.
Na avaliação de Farias, o país possui os principais componentes, mas ainda precisa conectá-los. Sem integração, bancos acumulam ferramentas que produzem recomendações isoladas, mas não conseguem executar jornadas completas.
Agentes podem coordenar operações financeiras
A próxima etapa da inteligência artificial financeira deverá ser marcada por agentes especializados trabalhando dentro do mesmo fluxo.
Em uma operação de crédito, diferentes agentes podem verificar a identidade do cliente, consultar dados autorizados, avaliar riscos, identificar tentativas de fraude, preparar uma proposta e apoiar a formalização do contrato.
Em seguros, podem atuar desde a cotação até a análise de um sinistro. O diferencial aparece quando os sistemas compartilham contexto, seguem as mesmas regras e conhecem os limites de sua atuação.
Farias explica que essa estrutura exige capacidades modulares, uma camada de orquestração e mecanismos de governança incorporados aos processos. Sem isso, a automação pode apenas transferir o trabalho para conferência, correção e tratamento de falhas.
Governança será condição para avançar
Quanto maior a autonomia dos agentes, maior será a necessidade de controle. Sistemas que interferem em decisões sobre crédito, pagamentos ou investimentos precisam seguir políticas executáveis e registrar as informações utilizadas em cada operação.
Também devem encaminhar situações sensíveis para análise humana e permitir que uma decisão seja interrompida, corrigida ou contestada.
Para Farias, demonstrar como uma decisão foi tomada será tão importante quanto executá-la rapidamente. A ausência de rastreabilidade pode transformar ganhos de produtividade em riscos regulatórios, financeiros e reputacionais.
País ainda precisa superar obstáculos
O Brasil conta ainda com uma política pública voltada ao desenvolvimento da tecnologia. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê R$ 23 bilhões em investimentos até 2028, incluindo infraestrutura, formação profissional, inovação empresarial e serviços públicos.
Apesar das condições favoráveis, sistemas legados, dados fragmentados, falta de profissionais especializados e dificuldades de governança ainda podem limitar o avanço.
Na avaliação de Farias, poucos mercados combinam pagamentos instantâneos massificados, Open Finance regulado, instituições capitalizadas, grande número de fintechs e consumidores habituados aos serviços digitais.
O Brasil, portanto, já construiu parte da infraestrutura necessária para a próxima geração da IA financeira. Transformar essa vantagem em liderança dependerá da capacidade de unir dados, agentes e processos dentro de operações seguras, integradas e auditáveis.




