Pesquisa com 5.569 participantes aponta avanço no uso das ferramentas, mas revela lacunas de treinamento, governança e preparo dentro das empresas.
A inteligência artificial é percebida como oportunidade de crescimento profissional por 70% dos participantes de um levantamento realizado pela Hashtag Treinamentos. Outros 28,7% avaliam a tecnologia de maneira ambígua, reconhecendo ganhos e ameaças, enquanto somente 0,5% a classificam predominantemente como risco aos empregos.
Os resultados mostram uma visão favorável sobre a IA, mas não eliminam a insegurança em relação às transformações do mercado de trabalho. Entre os respondentes, 42,9% afirmam sentir medo de se tornarem profissionalmente irrelevantes, ainda que ocasionalmente. Outros 30,6% acreditam que seu cargo pode desaparecer ou perder relevância — ou, pelo menos, consideram essa possibilidade.
O cenário sugere que a preocupação não está concentrada apenas na substituição imediata de trabalhadores por sistemas automatizados. O receio também envolve a velocidade com que as competências, as ferramentas e os modelos de trabalho estão mudando.
“A tecnologia tende a mudar o valor de determinadas tarefas, mas isso não significa que o trabalho humano desapareça na mesma proporção. Algumas competências passam a valer mais do que outras”, afirma João Paulo Martins, sócio-fundador da Hashtag Treinamentos.
Segundo o executivo, profissionais que compreendem essa transformação conseguem utilizar a IA para ampliar sua capacidade de análise e execução, em vez de enxergá-la somente como ameaça.
Pesquisa retrata público conectado à qualificação
O estudo “Relevância Profissional, Inteligência Artificial e Futuro do Trabalho” ouviu 5.569 pessoas em março de 2026. A coleta foi realizada por meio de um questionário on-line estruturado com 19 perguntas, aplicado à base de relacionamento da Hashtag Treinamentos.
A apuração e a análise ficaram sob responsabilidade da área de inteligência de mercado da Economídia. A amostra reúne alunos, ex-alunos e pessoas interessadas em desenvolvimento de carreira e qualificação profissional.
Por esse recorte, os resultados não representam necessariamente toda a população brasileira. Eles retratam um público que já mantém algum nível de proximidade com educação profissional e atualização de competências.
Entre os participantes, 83,6% exercem alguma atividade profissional e 76,6% possuem ensino superior completo ou formação acima desse nível. O perfil ajuda a contextualizar a elevada percepção da IA como oportunidade.
Profissionais adotam IA antes das empresas
O levantamento identifica uma distância entre o uso individual da inteligência artificial e a criação de políticas corporativas para orientar essa adoção.
Somente 20,6% dos participantes percebem investimentos claros em IA dentro das organizações. Em sentido oposto, 34,9% não identificam investimentos relevantes.
Outros 20,4% afirmam que suas empresas disponibilizam ferramentas, mas não oferecem treinamento. Já 13,1% relatam a existência de capacitações apenas pontuais.
Esse cenário pode levar os profissionais a testar plataformas e adaptar processos por conta própria. Embora a iniciativa individual possa gerar ganhos imediatos, a ausência de orientação também amplia riscos relacionados à privacidade, à proteção de dados, à segurança da informação e à confiabilidade dos conteúdos produzidos.
Quando a empresa não estabelece regras, diferentes equipes podem utilizar ferramentas sem avaliação técnica, inserir informações sensíveis em plataformas externas ou tomar decisões com base em respostas que não foram verificadas.
A adoção espontânea, portanto, não substitui uma estratégia corporativa. Para transformar experimentação em produtividade, as organizações precisam combinar acesso, treinamento, governança, acompanhamento e definição clara dos problemas que desejam resolver.
Uso cresce, mas maturidade continua limitada
A IA já faz parte da rotina de uma parcela expressiva da amostra. Entre os respondentes, 58% utilizam ferramentas desse tipo há mais de um ano. Os demais 42% estão em uma etapa mais recente de adoção ou ainda não fazem uso da tecnologia.
A pesquisa e a busca de informações aparecem como as atividades mais frequentes, mencionadas por 75,6% dos participantes. A criação de textos ocupa a segunda posição, com 65,2%.
Apesar da presença crescente das ferramentas, somente 13% afirmam utilizar inteligência artificial de forma avançada no trabalho. O dado mostra que experimentar um chatbot ou gerar um texto não significa necessariamente integrar a IA aos processos de maneira estruturada.
“O levantamento mostra uma distância importante entre experimentar IA e incorporá-la de forma consistente à rotina profissional. O uso já está presente, mas ainda varia muito em profundidade, finalidade e nível de autonomia”, afirma Luis Fernando Klava, CEO da Economídia.
Para ele, essa diferença deve ser observada pelas empresas que pretendem converter a adoção individual em resultados organizacionais.
Quatro em cada dez se sentem pouco preparados
A percepção dos participantes sobre o próprio preparo reforça a necessidade de investimentos em capacitação. Embora 45,1% se considerem razoavelmente preparados para enfrentar mudanças tecnológicas, apenas 14,1% afirmam estar muito preparados.
Outros 40,8% dizem estar pouco ou nada preparados. A diferença entre o interesse pela tecnologia e a confiança para utilizá-la indica espaço para programas de formação que ultrapassem treinamentos básicos sobre ferramentas.
As empresas precisam desenvolver conhecimentos sobre formulação de problemas, validação de respostas, proteção de informações, uso responsável dos dados e aplicação da IA em processos específicos de cada área.
Também é necessário definir responsabilidades. Um profissional pode utilizar a tecnologia para elaborar uma análise, mas a revisão, a decisão e a responsabilização pelos resultados continuam exigindo participação humana.
Pensamento crítico lidera entre as competências
Quando questionados sobre as habilidades mais importantes para enfrentar a automação, 66,1% dos participantes apontaram o pensamento crítico. A capacidade de aprender continuamente aparece em seguida, com 57,7%.
Raciocínio lógico foi mencionado por 52% e criatividade por 45,1%. Comunicação eficaz, inteligência emocional e relacionamento interpessoal também aparecem entre as competências consideradas relevantes.
Já entre as capacidades que o mercado passou a exigir com maior intensidade, o uso de ferramentas digitais lidera, citado por 69,1%. Pensamento analítico aparece com 61,3%, enquanto análise de dados foi mencionada por 53,3%.
Os resultados indicam que a empregabilidade tende a depender da combinação entre domínio tecnológico e capacidades humanas. Saber utilizar uma ferramenta pode acelerar uma tarefa, mas interpretar o contexto, questionar as respostas e decidir como aplicar os resultados continua sendo essencial.
IA impulsiona busca por qualificação
O avanço da tecnologia já provoca movimentos de atualização profissional. Entre os participantes, 41% afirmam estar estudando ou realizando cursos. Outros 22% dizem testar e aprender a utilizar ferramentas de IA, enquanto 14% investem no desenvolvimento de habilidades técnicas.
Esse comportamento ajuda a explicar por que a inteligência artificial é percebida mais como oportunidade do que como ameaça dentro da amostra. Para muitos profissionais, a tecnologia funciona como estímulo à qualificação e ao reposicionamento da carreira.
“A pergunta deixa de ser apenas se a IA vai substituir empregos e passa a ser quem conseguirá continuar relevante em um mercado mediado por IA”, afirma Martins.
Para as empresas, o levantamento deixa um alerta: os profissionais já estão experimentando a tecnologia, mas a resposta corporativa avança em ritmo desigual. O desafio agora é transformar iniciativas dispersas em uma estratégia que combine produtividade, segurança, desenvolvimento de competências e supervisão humana.





